sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

#64 - Gênio e Louco (Redundância?)


Frequentemente, quando nos propomos a observar a vida dos grandes gênios musicais dos tempos passados, nos deparamos com descrições bastante intensas sobre comportamentos excêntricos, bizarros... o que nos faz concluir (em nosso costume de generalismo) que os compositores clássicos eram todos um bando de malucos.

Ainda assim, estes grandes mestres conseguiam fechar trajetórias razoáveis, de uma forma ou de outra. O que dizer então se nos deparássemos com um desses marcos da música que fosse oficialmente vestido em camisa-de-força? Bem, diríamos, esse deve ter realmente passado dos limites! (limites bem generosos quando o assusto é o espírito artístico, convenhamos).

Robert Alexander Schumann, pianista e um dos compositores alemães mais venerados da história, teve uma vida de grandes azares. Ainda assim, para compensar, as forças do destino lhe concederam a bênção de não ser solitário – característica comum de seus colegas. Em 1830, contando vinte anos de idade, juntou-se ao professor de piano Friedrich Wieck. Ao deparar-se com o talento de Schumann, Wieck escreveu a um parente do rapaz dizendo: “em três anos posso torná-lo o melhor pianista de toda a Europa”. E Schumann, ao deparar-se com a filha de Wieck, Clara, apaixonou-se imediatamente.

Clara tinha nove anos de idade, e demonstrava extremo talento ao piano. Wieck desejava transformar Schumann em um solista. Schumann desejava ser compositor. A vontade de Schumann prevalesceu não por rebeldia, mas pela ironia do destino: o rapaz, por si mesmo, treinou tanto e tão pesado que arruinou um dos dedos.

Quando Clara completou 16 anos, Schumann finalmente conseguiu realizar seu sonho de casar-se com ela, o que vinha sendo violentamente contestado por Wieck. A união tornou-se uma das maiores bênçãos na vida de Schumann, já que as talentosas interpretações de Clara para as composições pianísticas do marido alimentavam o ânimo de Schumann a direcionar seu gênio rumo a uma revolução na música.

Uma de suas obras destaca-se como sendo um resumo de toda a sua maestria, virtuosismo e inspiração. Trata-se do 3º Movimento de seu Concerto para Piano em Lá Menor. A riqueza de liberdade, de texturas, de tonalidades, criam nesta obra-prima um vitral musical luminoso e intrigante. É o tipo de música que certamente enriquece o ser humano que busca decifrá-la... Tentemos:

- Schumann, Piano Concerto em Lá Menor, 3º Movimento:
http://www.youtube.com/watch?v=mSt_AjvCo8s&feature=related

Esta matéria tem relação com o post #27:
http://barcamor.blogspot.com/2008/05/27-o-cavalheiro-solitrio.html

Bom proveito!

#63 - Com quantos versos se faz uma canção...


Em 1995 acontecia mais uma edição do Festival Eurovisão, um concurso de canções televisivo dos mais importantes do mundo, com uma audiência que já chegou a centenas de milhões de espectadores. Como sempre, vários países, não só da Europa, estavam com suas canções originais inscritas e seus respectivos intérpretes.

No ano citado, em especial, algo ocorreu de intrigante... Dentre todas as belas canções apresentadas, foi escolhida como vencedora absoluta a de uma dupla formada por uma violinista e um pianista. O detalhe que chamou a atenção sobre esta vitória foi que a tal música dificilmente poderia ser denominada como “canção”, e não tinha mais do que três ou quatro pequenos versos, em poucos segundos de voz no início e final de uma obra absolutamente instrumental.

Seria muito comum, num caso desses, que houvesse uma grande polêmica, e que os “maus perdedores” protestassem contra o resultado, talvez até com razão. Mas ninguém se levantou para contestar a vitória de “Nocturne”, e foi a partir dela que a dupla Fionnuala Sherry e Rolf Løvland (ela irlandesa, ele norueguês) surgiu para o mundo, sob o nome de Secret Garden.

Ouvindo a citada música, compreendemos por que coube aos demais apenas resignarem-se...

- Secret Garden – “Nocturne”:
http://www.youtube.com/watch?v=iqF9iqBZKv0&feature=related

- Secret Garden – “Song from a Secret Garden”:
http://www.youtube.com/watch?v=wasYNNfnfVE

Bom proveito!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

#62 - "Sorria", a última mensagem do Vagabundo.


Aqui neste humilde blog já foram retratadas dezenas de obras belíssimas, bem como seus criadores. Alguns deles me são especialmente caros, e ainda assim pude formular algo a respeito deles.

Mas tentar falar qualquer coisa sobre Charlie Chaplin conseguiu me causar, pela primeira vez, uma completa sensação de impotência textual. Diante de tão sublime espírito, as palavras parecem sacrilégio, e se recusam a surgir...

Passo então para o objetivo central deste post, que é a expressão da criatividade musical de Chaplin. Trata-se das canções compostas por ele para o último filme com seu famoso personagem Vagabundo: “Tempos Modernos”.

- “Smilena voz de Nat King Cole:
http://www.youtube.com/watch?v=5sqLRNVmR44

- Smile”, versão do filme:
http://www.youtube.com/watch?v=Ps6ck1ejoAw

- A Non-Sense Song” (primeira vez que se ouve a voz de Chaplin no cinema):
http://www.youtube.com/watch?v=eZhSvSvMBgU&feature=related


Sorria...

#61 - Xís


Convenhamos que os fãs de bandas ao estilo da Symphony X automaticamente adivinhariam a nacionalidade de seus membros... Algo entre Nova Zelândia, Alemanha, ou algum desses países geradores profícuos desse gênero de músicos.

Convenhamos também, entretanto, que os próprios compatriotas do Symphony X, os norte-americanos, os rotulariam do mesmo modo, já que são praticamente desconhecidos na própria casa.

Nem o líder da banda, Michael Romeo (compositor principal e extraordinário guitarrista), consegue definir bem o som do grupo, mas o nome nos dá o plano geral. “Symphony” (sinfonia) revela forte influência clássica/erudita, e o “X” é algo que sabemos ser muito apreciado por fãs de ficção científica ou temas misteriosos e mitológicos. Essas podem ser as linhas gerais.

Talvez pudéssemos enumerar vários outros grupos tão ou mais técnicos instrumentalmente do que o Symphony X... e olhe que eles são bastante refinados, mas o que destaca a banda de todas as outras é uma genialidade melódica singular, e constantemente nos deparamos, ouvindo suas músicas, com trechos magníficos e inspiradores, como:

- O refrão de “The Accolade”, que só vem aos ‘3:35:
http://www.youtube.com/watch?v=SdeijfndRTA

- A hipnose rítmica de “Communion and the Oracle”:
http://www.youtube.com/watch?v=jkRO3lzA2YY&feature=related

- A sublimidade após o frenesi aos ‘3:31 em “The Edge of Forever”:
http://www.youtube.com/watch?v=j0f89fcIayw

Bom proveito!

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

#60 - A banda de um homem só


Uma situação hipotética...

Imagine que eu te convide, empolgadíssimo, para ir comigo a um show. Você me pergunta do que se trata, e eu respondo que é de um cantor maravilhoso, filho do primeiro barítono negro a obter reconhecimento. Digo que é imperdível, já que o homem tem uma capacidades vocal extraordinária (cerca de 4 oitavas), e que além de tudo detém uma misteriosa técnica oriental de vocalizar, sozinho, mais de uma nota ao mesmo tempo.

Talvez você fique empolgado. E lá vamos nós, felizes.

Agora, o que você sentiria se, ao chegar ao tal show, se deparasse com um palco absolutamente vazio? E o que pensaria, então, quando entrasse finalmente o tal cantor, e ele viesse com nada além de um microfone, e começasse a fazer uns passinhos desajeitados, e a soltar uns murmúrios sem sentido?

E se eu garantisse que, nos dois minutos seguintes você já estaria provavelmente com vontade de aplaudi-lo de pé?

Acreditaria? Então veja com os próprios olhos, e ouça com os próprios ouvidos...

Com vocês, o maestro Bobby McFerrin:

Improvisação:
http://www.youtube.com/watch?v=MVVUMNv1t9w

Invenções Espontâneas:
http://www.youtube.com/watch?v=5VfyMPHzYdQ&feature=related

“Bobby McFerrin – Drive”:
http://www.youtube.com/watch?v=LtXrKo8Btfc&feature=related

“Bobby McFerrin – Ave Maria”:
http://www.youtube.com/watch?v=PgvJg7D6Qck&feature=related

Bom proveito!

#59 - Basil - O Bárbaro


Eu aposto com toda segurança: se você perguntar a qualquer fã de RPG ou temas medievais, qual é a trilha sonora favorita dele, o indivíduo que não responder “Conan – O Bárbaro” só o fará por nunca tê-la ouvido.

Esta obra musical antológica foi composta por Basil Poledouris, um grego criado nos EUA entre o som do órgão de sua igreja, alguns pequenos encargos eclesiásticos e aulas de piano.

O que mais impressiona no estilo de Basil é sua capacidade de mergulhar tão fundo, e com tanta propriedade, em aspectos extremamente distintos da música. A trilha de “Conan – O Bárbaro” é um resumo desta sua genialidade, que vai das mais potentes forças telúricas ao mais sublime lirismo.

Sua filmografia (curta para um artista de seu nível) também reflete esse extremismo, já que nela há necessariamente filmes bastante adversos entre si (“Conan” e “Free Willy”, ou “Robocop” e “A Lagoa Azul”).

A seguir vão links para sua obra-prima, algumas de minhas partes favoritas de “Conan – O Bárbaro”. Por último posto um vídeo raríssimo, feito por um espectador: o próprio Basil regendo seu tema mais famoso e recebendo uma das mais longas ovações de sua vida, pouco antes de falecer em 2006.

“Conan, O Bárbaro – Anvil of Crom”:
http://www.youtube.com/watch?v=sHDmXtW9Yx0

“Conan, O Bárbaro – Theology / Civilization”:
http://www.youtube.com/watch?v=Gur7kJythgM&feature=related

“Conan, O Bárbaro – Wifeing”:
http://www.youtube.com/watch?v=4HOauI2KBS0

Basil Poledouris regendo:
http://www.youtube.com/watch?v=NaBBQsRvwkU&feature=related

Bom proveito!

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

#58 - Boas Festas!


Gostaria de, em primeiro lugar, desejar a todos um Feliz Natal. E em segundo lugar, gostaria de sugerir que, em meio a tantas correrias naturais pelos produtos costumeiros das Festas, todos pudéssemos, no mínimo, tirar alguns instantes para refletirmos sobre a razão de existência desta data.

Esquecendo discussões inúteis sobre datações, há pouco mais de dois mil anos veio ao mundo um homem que dividiu a contagem dos anos em Antes e Depois, por nos ensinar a amar.

Jesus de Nazaré dividiu a História Planetária por inverter totalmente o paradigma moral da época. Ao invés de “olho por olho, dente por dente”, o amor incondicional e o perdão tornaram-se as novas Leis Humanas e o mais difícil dos desafios íntimos que temos de enfrentar.

Tamanho é o absolutismo de seu ensinamento que ainda hoje raros são aqueles que conseguem pôr em prática. Ainda assim, o desafio está colocado, não como uma lei religiosa vazia, mas como o único caminho para a felicidade verdadeira (a coletiva) e para a evolução do mundo.

Existem muitas músicas natalinas, e gostaria de postar uma de minhas favoritas numa versão mais moderna que achei bem bonita. E também uma clássica homenagem de Bach ao Mestre da Humanidade.

“God Rest Ye Merry Gentlemen”(autor desconhecido):
http://www.youtube.com/watch?v=01uoLNxSLrY

“Bach – Jesus Alegria dos Homens”:
http://www.youtube.com/watch?v=DNdjML2kquc&feature=related

“Ame ao próximo como a ti mesmo, e a Deus sobre todas as coisas.”

Feliz natal a todos!

#57 - Bicho do mato


E aquele jovem que seria advogado no Rio de Janeiro decidiu largar tudo e voltar para sua terra. Por quê? Ideologia, epifania...?

Somente o talento de Almir Sater nos fornece a pista para explicar tamanho risco... deixar uma metrópole importante, um curso importante, numa idade tão decisiva, para voltar à sua casa: um lugar tão remoto aonde, na maior parte do ano, só se pode chegar de avião.

Ao ouvir as músicas de Almir, pode-se compreender perfeitamente o universo que povoa seu íntimo, e este universo é sua terra natal. Seu lar de origem é tão perdido na imensidão pantaneira que os indivíduos lá são obrigados a viver aglutinados à natureza e a obedecerem rigorosamente os seus ciclos. Lá também perde-se a noção de “propriedade”, e a única coisa que se consegue chamar de “casa” é a paisagem.

As músicas de Almir Sater são uma tradução gritante deste contexto. Sua voz é pacífica, seu toque de viola é brilhante, e suas letras a poesia da natureza.

-“Terra de Sonhos”:
http://www.youtube.com/watch?v=Vj4oCRUbrno

-“Trem do Pantanal”:
http://www.youtube.com/watch?v=NcfFvcxOnSM
Bom proveito!

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

#56 - "Que que deu nesse menino?..."


Não seria mesmo fácil encontrar uma forma empolgante de falar sobre Andy McKee, ou de narrar sua ainda curta história musical.

É tudo muito simples, muito comum... O tipo de coisa que ocorre de maneira repentina e quase ninguém nota. Deve ser igual a visitar parentes e encontrar aquele garotinho de 12 anos que você não vê há 5 anos, e grita: “Meu Deus, o que aconteceu com você?!”.

Sabe-se lá o que ocorreu... Andy McKee tinha 13 anos, e deu na cabeça dele fazer umas aulas de violão. Não houve nada de mais, já que o garoto não dava a mínima para as lições. Um primo (desses primos quaisquer, que todo mundo tem), foi com ele, certo dia, à apresentação de um violonista bacana. Andy gostou do que viu, e comprou uma fita de vídeo com algumas técnicas do homem.

Aí então, assim de repente, como gritar “meu Deus, o que aconteceu com você?!”, deu nisso. McKee tornou-se um violonista compositor, detentor de uma incrível capacidade de fazer com duas mãos o que normalmente necessitaria de quatro.

A música “Drifting”, de seu terceiro CD, já foi assistida mais de 8 milhões de vezes no Youtube.

“Andy McKee – Drifting”:
http://www.youtube.com/watch?v=Ddn4MGaS3N4&feature=related

“Andy McKee – Art of Motion”:
http://www.youtube.com/watch?v=nmE3QaGetn4&feature=channel

Bom proveito!

#55 - A canção de todo mestre


Hoje podemos enumerar diversos filmes que tratam do tema “Mestres & Alunos”. Temos “A Sociedade dos Poetas Mortos”, “Mentes Perigosas”, “Adorável Professor”, “Escritores da Liberdade”, etc...

O que muitos de nós não sabemos, é que este gênero ganhou destaque graças ao filme “Ao Mestre com Carinho”, de 1966, e estrelado por Sidney Poitier, o primeiro ator negro a receber um Oscar de melhor ator principal.

O filme, que já é belíssimo por si, vem adocicado por uma maravilhosa canção, cuja intérprete (Lulu) é mesmo a própria atriz que faz o papel da aluna que canta no final. A letra de “To Sir, With Love” fala sobre uma transição para a maturidade, e da incapacidade de se agradecer aquele que tornou possível esta transição.

A música (composta por Don Black e Marc London, escritor do “The Muppet Show”) alcançou imediatamente o topo das paradas, e até hoje é possível para muitos lembrarem-se de tê-la ouvido em algum lugar... em alguma época...

“Lulu – To Sir, With Love”:
http://www.youtube.com/watch?v=AQztUCuXzKU&feature=related

Bom proveito!

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

#54 - O quarto tenor fugiu pro rock


Quem disser que Freddie Mercury é um cantor bastante operístico, dificilmente será criticado. Ainda assim, a despeito do inigualável talento do cantor (inclusive como compositor), é válido perguntar de onde exatamente surge a associação entre seu estilo e a ópera.

Não é possível rotular Freddie Mercury como cantor lírico baseando-se em sua capacidade vocal, que apesar de extraordinária, apresenta em grande parte a roupagem – por vezes lisa, por vezes áspera – do rock. Mas é sim possível colocá-lo neste patamar, se nos detivermos em certos parâmetros claramente notados em suas composições.

Em outras palavras, se a roupagem da voz de Freddie não tem “cara de ópera”, suas músicas muitas vezes estruturam-se na liberdade operística. É exatamente graças à influência da música operística que os maiores sucessos do Queen (compostos por Freddie), são acusados – no bom sentido – de romperem lindamente com as estruturas do rock, tomando rumos inusitados e muitas vezes de cunho narrativo.

Vamos tentar perceber esse aspecto tão significativo de suas músicas, sob dois prismas bem distintos, mas que levam ao mesmo raciocínio:

-Primeiro, a quebra da estrutura convencional rock:
http://www.youtube.com/watch?v=Db65ZsVsLWo&feature=related

-Segundo, numa canção mais convencional, em parceria com a cantora lírica Montserrat Caballé:
http://www.youtube.com/watch?v=mvZGgbF43H8

Bom proveito!

#53 - Casamentos perfeitos, filhos notáveis


Era início da década de 60, e quatro amigos (as garotas Michelle e Cass; e os garotos John e Denny) assistiam televisão. De repente, surge uma entrevista com os lendários motoqueiros Hell’s Angels. As meninas agitam-se com a visão de um belo exemplar masculino encasacado que diz: “Aqui nós chamamos nossas mulheres de ‘mamas’!”. Imediatamente, Michelle e Cass suspiram, dizendo em uníssono o quanto adorariam ser “mamas”.

E a questão foi de pura lógica: se elas seriam “mamas”, restaria a John e Denny serem os “papas”. E assim surgiu o “The Mamas & the Papas”, grupo vocal que criava suas próprias canções, e não bastasse a beleza das mesmas, davam a elas uma dinâmica de vozes que tornou-se marca registrada na história da música.

O “The Mamas & the Papas” foi um dos únicos grupos norte-americanos que conseguiu competir na época, em primeira grandeza, com a “invasão britânica” que dominava as paradas de sucesso (e encabeçada, para se ter uma idéia, pelos Beatles).

Sua maior obra-prima é, sem dúvida, a canção “Califórnia Dreamin’”, exemplo básico e clássico da genialidade com que construíam o jogo das vozes:

http://www.youtube.com/watch?v=dN3GbF9Bx6E

- “Monday, Monday”:
http://www.youtube.com/watch?v=LW7NpsHR3K0

Bom proveito!

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

#52 - A voz na Escuridão


Era uma tarde comum na comuna rural de Lajatico, Itália. Num pequeno campo improvisado, alguns garotos jogavam futebol.

A princípio, a meninada torcia o nariz quando o jovenzinho Andrea oferecia-se para jogar. Diziam que ele tinha um problema de nome esquisito, que o fazia enxergar muito mal. Goleiro, nem pensar... Com o tempo haviam se acostumado. Naquele dia, porém, o destino selaria sua sentença... Numa emocionante jogada de ataque, um chute poderoso e certeiro fez a bola atingir a cabeça de Andrea, e ele ficou definitivamente cego.

Talvez aquele que não possa ouvir o que vem de fora, possa ouvir melhor o que vem de dentro, como Beethoven. E se com a visão dá-se o mesmo, talvez tenhamos boa explicação para o excepcional talento que o garoto cego passou a demonstrar em sua emoção e voz.

Andrea Bocelli veio a tornar-se um dos maiores cantores do mundo. Engrossou também, junto do ícone Luciano Pavarotti, a fileira dos gênios que vieram ao mundo numa importante missão: trazer a música das óperas e orquestras para o povo, para as grandes massas. Grandes massas estas extremamente desgastadas pela frivolidade e banalidade que tem condenado a música popular ao posto de trivialidade instantânea.

Muitas foram as canções que fizeram sucesso pela voz de Andrea. Uma delas chama especial atenção, não só por sua beleza em si, mas por conter uma poética homenagem à nossa padecida Terra.

-“Andrea Bocelli – Canto Della Terra”:
http://www.youtube.com/watch?v=kCrWxKoOhH8&feature=related

Bom proveito!

#51 - Três são demais


O jazz não é só um estilo musical refinado, consagrado, mas também é um gênero que tem sua execução aparentemente subordinada sempre a músicos de alto nível técnico e acuidade.

Por que então o jazz é o estilo que tem recebido críticas das mais ácidas, principalmente quanto ao quesito “inovação”? Muitos têm afirmado que o jazz parou no tempo, que sobrevive de antigos temas e que as novas idéias continuam ser afogadas pelas entusiásticas improvisações, em que os músicos mostram sua técnica e quase sempre esquecem do mais importante: a idéia musical.

Fica fácil captar melhor essa idéia de mesmice quando nos deparamos com algo como o “The Bad Plus”. Trata-se de um trio de jazz absolutamente surpreendente, e isto é facilmente notado graças à clara prioridade que o grupo dá à idéia principal de cada música, bem como à estrutura que a rodeia. As viagens solísticas egocêntricas ficam em segundo plano.

O “The Bad Plus” prioriza a música, e não o músico. O resultado é uma sonoridade envolvente, imprevisível, e por incrível que pareça: muito simples.

O trio formou-se em 2000 pelo pianista Ethan Iverson, o baixista Reid Anderson e o baterista Dave King, e é famoso por criar, além das músicas próprias, versões de músicas pop e rock (como Queen, Radiohead, Tears For Fears etc..).

Aí vão três maravilhosas obras originais do “The Bad Plus”:

-“Anthem For the Earnest”:
http://www.youtube.com/watch?v=lb-bJlxXDbs

-“Physical Cities”:
http://www.youtube.com/watch?v=81YcNs82kyA&feature=related

-“Dirty Blondie”:
http://www.youtube.com/watch?v=04g1aFNoBZs&feature=related

Bom proveito!

terça-feira, 26 de agosto de 2008

#50 - Cellar Door


Em 2001 foi lançado um filme que passou quase em branco pelos circuitos. Por incrível que pareça, ao assisti-lo podemos até sentir no fundo que isto é justificável...

O complexo roteiro é baseado nas teorias de Stephen Hawking e na filosofia de Roberta Sparrow, e o que mais nos excita e desafia nele como espectadores talvez seja a apresentação deste elemento Quântico misturado a um aparente distúrbio psicológico do protagonista (Donnie Darko, que dá o próprio nome do filme). Na verdade, o distúrbio de Donnie é aparentemente discutido como uma espécie de “fenda” que o permite obter contatos com uma outra dimensão.

Na estória, a casa de Donnie é vítima de um misterioso e inexplicável acidente, e a partir dele o rapaz começa a ser estranhamente induzido, pela visão de um homem-coelho feio pra diacho, a executar uma série de “tarefas” que ele próprio não compreende, mas que sente estarem conectadas à necessidade de impedir uma catástrofe. Ele trava, um tanto sem perceber, uma batalha contra o medo da morte ao compreender que precisará entregar sua vida para salvar a quem ama. E não se preocupe quem não assistiu, porque não entreguei nada... A coisa vai exigir muita queima de neurônios, garanto...

Musicalmente falando, o filme sustenta-se muito no som do grupo Tears for Fears, uma perfeita escolha para trazer a nostalgia dos anos 80, a se notar principalmente por esta pequena e arrebatadora cena (que vale dizer, não é um clipe, é no filme exatamente assim), que traça de maneira muito mais interessante do que a mera “narrativa regular” um panorama geral dos personagens que cumprirão papel fundamental na estória:
http://www.youtube.com/watch?v=AXwelEWpPXs

Outra canção do Tears for Fears usada, como tema principal, é a “Mad World”, só que em versão de Gary Jules, mais simples e intimista.

“Gary Jules – Mad World”:
http://www.youtube.com/watch?v=D1Nq086QB1Q

“Tears for Fears – Mad World” (original):
http://www.youtube.com/watch?v=nXuXikfIYHY&feature=related

Bom proveito!

#49 - De boneco e louco todo mundo tem um pouco...


O programa infantil Vila Sésamo estreou na programação brasileira em 1972, e tornou-se lembrança muito cara aos que foram crianças na época. Exaltado até os dias atuais, graças à genialidade de sua estrutura e conteúdo, Vila Sésamo foi a versão nacional de Sesame Street (“Rua Sésamo”) criado nos EUA em 1969 com base em inovadores estudos de educadores. A versão original tornou-se um dos programas mais duradouros da história, com mais de 30 anos initerruptos de produção.

Graças ao programa, uma música bastante despretensiosa criada pelo italiano Piero Umiliani tornou-se extremamente famosa, ao ser apresentada num quadro musical com a hilária coreografia de três peculiares personagens.

Após o sucesso desta primeira versão, outra coreografia, ainda mais hilária, foi apresentada no programa “The Muppet Show”, produção com bonecos que surgiu a partir de Sesame Street, com objetivo de ser mais “variedades” e agradar não apenas crianças. Vamos a ela:

“The Muppet Show - Manah Manah”:
http://www.youtube.com/watch?v=7wMHcpMmV9g

Outra que também vale um click:

“Harry Belafonte & The Muppet - Banana Boat Song”:
http://www.youtube.com/watch?v=Jpg-KIKD5gU&feature=related

Bom proveito!

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

#48 - O vento que cresceu a barba


Dependendo das circunstâncias gerais em que o faça, ouvir uma boa música deles é como fazer, no meio de um espasmo de felicidade, uma terrível piada sobre seu melhor amigo; é o encontro com a conclusão sábia de que aquilo foi mais você do que o você cotidiano, sendo este último a versão improvisada de um bom manequim social.

Parece espantoso que muitos dos fãs de Los Hermanos relatem uma sensação de “invasão” quando envolvidos pelas canções do grupo, e falo de “invasão” no sentido injusto mesmo, como a possível sensação de alguém sentado no meio de uma roda onde todos pudessem ler seus pensamentos. Mas não tenho muita certeza de que este resultado seja tão misterioso...

Uma das características mais notáveis na banda é a precisão com que as letras são assentadas sobre a melodia, bem como seu temas e desenvolvimentos. Em suma, ao mesmo tempo em que as letras criadas não interferem na idéia melódica, elas não perdem substância por uma comum priorização de um elemento ou outro: letra e música convergem perfeitamente.

O resultado disso é que a bela musicalidade da banda prepara nosso terreno emocional para a série de panoramas e imagens a que as letras nos submetem, e é para nós impossível deixar de tentar decifrá-las. E é por culpa deste ímpeto pela explicação que muitas vezes empobrecemos algumas das letras do grupo, atribuindo a elas uma pretensa “complexidade poética”.

Alguns já descobriram a beleza que é apreciá-las em seus sentidos mais óbvios e simples, como a maravilhosa “Além do Que Se Vê”, que Marcelo Camelo (letra e música) compôs para sua mãe pintora: http://www.youtube.com/watch?v=P9lvAQdFwyM

O Los Hermanos tem uma trajetória (ainda que recente) bem interessante. Após um álbum de estréia com estilo musical frenético e meloso (até debochado), veio um segundo disco bastante diferente, mais introspectivo e refinado, cujo mote parecia ser mesmo o susto que acomete o folião quando a festa acaba. A primeira música deste álbum dá esta clara idéia, introduzida por um trombone solitário e triste, que parece lamentar-se num salão vazio e abarrotado de sepentina e confete:

“Los Hermanos - Todo Carnaval Tem Seu Fim”:
http://www.youtube.com/watch?v=J16o9bYS-no

"Casa Pré-Fabricada" (versão de Roberta Sá):
Bom proveito!