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quinta-feira, 29 de julho de 2010

#77 - Nascido nas águas de janeiro


Ele tinha que nascer das águas, entretanto o conserto de um cano na região ditava a secura dos dias. Exatamente por isso os céus enviaram chuvas torrenciais naquela noite em que o carioca Tom Jobim nasceu. 25 de janeiro de 1927.
Regido pelos signos contemplativos e viajores da natureza, água e ar, Tom desde cedo aglutinou-se ao mar e aos vôos da imaginação. Até isso ganhar função criativa quando, aos 14 anos, deparou-se com um piano na garagem de sua casa.
Para ele, piano era coisa de mulherzinha. Está aí a prova de que seu destino era claro, pois o rapazinho não conseguiu largar o piano desde então, chegando a estudar às vezes 10 horas por dia.
Com dedicação, experimentava acordes, queria ser concertista, porém seus professores o aconselhavam a tornar-se compositor. Esta centelha só se concretizaria muitos anos depois. Ainda era um "janeiro". Depois de um "fevereiro" trabalhando como arranjador e especializando-se em orquestração, então chegaram as águas de março.
Tom Jobim pôde então encantar o mundo com músicas cujas melodias percorriam caminhos imprevisíveis, embalados por harmonias por vezes nostálgicas, melancólicas e eufóricas. Um bom exemplo da riqueza harmônica, ou do que eu chamaria de "sensação de reviravoltas musicais" de Tom, é a canção "Passarim":
Tom Jobim - Passarim:
Bom proveito!

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

#57 - Bicho do mato


E aquele jovem que seria advogado no Rio de Janeiro decidiu largar tudo e voltar para sua terra. Por quê? Ideologia, epifania...?

Somente o talento de Almir Sater nos fornece a pista para explicar tamanho risco... deixar uma metrópole importante, um curso importante, numa idade tão decisiva, para voltar à sua casa: um lugar tão remoto aonde, na maior parte do ano, só se pode chegar de avião.

Ao ouvir as músicas de Almir, pode-se compreender perfeitamente o universo que povoa seu íntimo, e este universo é sua terra natal. Seu lar de origem é tão perdido na imensidão pantaneira que os indivíduos lá são obrigados a viver aglutinados à natureza e a obedecerem rigorosamente os seus ciclos. Lá também perde-se a noção de “propriedade”, e a única coisa que se consegue chamar de “casa” é a paisagem.

As músicas de Almir Sater são uma tradução gritante deste contexto. Sua voz é pacífica, seu toque de viola é brilhante, e suas letras a poesia da natureza.

-“Terra de Sonhos”:
http://www.youtube.com/watch?v=Vj4oCRUbrno

-“Trem do Pantanal”:
http://www.youtube.com/watch?v=NcfFvcxOnSM
Bom proveito!

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

#48 - O vento que cresceu a barba


Dependendo das circunstâncias gerais em que o faça, ouvir uma boa música deles é como fazer, no meio de um espasmo de felicidade, uma terrível piada sobre seu melhor amigo; é o encontro com a conclusão sábia de que aquilo foi mais você do que o você cotidiano, sendo este último a versão improvisada de um bom manequim social.

Parece espantoso que muitos dos fãs de Los Hermanos relatem uma sensação de “invasão” quando envolvidos pelas canções do grupo, e falo de “invasão” no sentido injusto mesmo, como a possível sensação de alguém sentado no meio de uma roda onde todos pudessem ler seus pensamentos. Mas não tenho muita certeza de que este resultado seja tão misterioso...

Uma das características mais notáveis na banda é a precisão com que as letras são assentadas sobre a melodia, bem como seu temas e desenvolvimentos. Em suma, ao mesmo tempo em que as letras criadas não interferem na idéia melódica, elas não perdem substância por uma comum priorização de um elemento ou outro: letra e música convergem perfeitamente.

O resultado disso é que a bela musicalidade da banda prepara nosso terreno emocional para a série de panoramas e imagens a que as letras nos submetem, e é para nós impossível deixar de tentar decifrá-las. E é por culpa deste ímpeto pela explicação que muitas vezes empobrecemos algumas das letras do grupo, atribuindo a elas uma pretensa “complexidade poética”.

Alguns já descobriram a beleza que é apreciá-las em seus sentidos mais óbvios e simples, como a maravilhosa “Além do Que Se Vê”, que Marcelo Camelo (letra e música) compôs para sua mãe pintora: http://www.youtube.com/watch?v=P9lvAQdFwyM

O Los Hermanos tem uma trajetória (ainda que recente) bem interessante. Após um álbum de estréia com estilo musical frenético e meloso (até debochado), veio um segundo disco bastante diferente, mais introspectivo e refinado, cujo mote parecia ser mesmo o susto que acomete o folião quando a festa acaba. A primeira música deste álbum dá esta clara idéia, introduzida por um trombone solitário e triste, que parece lamentar-se num salão vazio e abarrotado de sepentina e confete:

“Los Hermanos - Todo Carnaval Tem Seu Fim”:
http://www.youtube.com/watch?v=J16o9bYS-no

"Casa Pré-Fabricada" (versão de Roberta Sá):
Bom proveito!

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

#45 - Ótimas Notícias!


Como todo carinha que toca um instrumento, eu também tive uma banda. Ela chamava-se Virthua e durou alguns poucos anos até desfazer-se no tempo.

Na época nosso cantor era Guilherme Rios, e sempre me espantou o talento inigualável que ele tinha, tanto como cantor como na criação de músicas, embora em nossa banda ele fosse muito tímido para mostrá-las.

Depois que a Virthua acabou, muito torci para que ele seguisse adiante, e no fundo sempre achei que alguém com suas características estivesse fadado ao sucesso. Pois bem, poucas coisas dão tanta alegria a alguém como ver um amigo sincero realizar-se.

É com muita felicidade que noticio a participação da banda Líris (cujo vocalista é o dito cujo) hoje (06/08) no Programa do Jô, da rede Globo.

Não tenho dúvidas de que estes rapazes tem tudo para dar um novo fôlego ao rock nacional. Ouçam algumas músicas no link abaixo (recomendo "Simples Assim" e "Vento", minhas preferidas):

www.myspace.com/bandaliris

Muita sorte e inspiração aos nossos amigos Guiba, Vitão, Mike, Peepo e Nico!

quinta-feira, 10 de julho de 2008

#40 - They sure do brazilian music!


Em 1996 foi lançado um álbum especialmente notável, de uma banda brasileira, que canta em inglês e faz sucesso no Japão.

É muito interessante perceber que logo o Angra (para quem muitos torcem o nariz pela opção das letras em inglês) foi um dos grupos de rock que conseguiu englobar elementos de música brasileira em sua sonoridade de um modo objetivo, mantendo tanto a consistência do elemento novo quanto do rock, sem pretensões de mistura que costumam fazer com que alguns rockeiros nada pareçam mais que baiões com guitarra.

Isto ocorreu com o Angra no álbum em questão, chamado “Holy Land”, em que todas as músicas relacionam-se a contar sobre o descobrimento do Brasil, tanto pelo lado europeu quanto pelo lado indígena.

A beleza do disco foi crucial para gravar o Angra como representante absoluto do metal brasileiro, e para botá-los como estrelas de primeira grandeza no já mencionado Japão, atrás apenas de grupos como Guns’ Roses ou U2.

A banda é paulistana, formou-se em 1991 pelo empresário Toninho Pirani, e após drásticas mudanças de formação está atualmente parada. Aí vão algumas de minhas favoritas:

- “Angra – Deep Blue” (album Holy Land):
http://www.youtube.com/watch?v=g051RL2AH6U

- “Angra – Carolina IV” (album Holy Land):
http://www.youtube.com/watch?v=9XCtqvrO_Nk&feature=related

- “Angra – Metal Icarus” (album Fireworks):
http://www.youtube.com/watch?v=lAhEyuA7Smc

Bom proveito!

terça-feira, 17 de junho de 2008

#33 - O que passou calou, e o que virá dirá.


A mocinha que estudava piano e canto foi para a Itália, em busca do belcanto, mas resolveu deixar tudo para trás e mostrar por lá algum repertório brasileiro. Fez sucesso antes mesmo de lançar qualquer álbum.

A carioca Marisa Monte, tida pela revista Rolling Stone como a melhor cantora brasileira da atualidade, envolve-nos em intimismo e graça. Sua trajetória pelo estudo de voz lírica é perceptível em seu perfeccionismo e precisão vocal, mas que é conciso. Em outras palavras, Marisa faz o que considero o ato mais nobre dos seres humanos de voz privilegiada: colocar seu material em favor da música, e não usar uma boa música para exibir voz.

A sugestão aqui é uma canção feita em parceria com Carlinhos Brown (parceiro também nos Tribalistas, ainda com Arnaldo Antunes). O mais surpreendente em “Pra Ser Sincero” é o desenho harmônico (combinação de notas) que acompanha e abraça a melodia. É de causar sensações indescritíveis, à medida em que nos envolvemos por ele, por isso é interessante, para aqueles que não a conhecem, ouvirem três ou mais vezes. É uma experiência muito válida, já que a maioria de nós costuma ligar mais para letra e melodia.

Esta é a prova de que uma melodia não traz em si (como já ouvi músicos dizerem) a harmonia que a ela corresponde. Traz, é claro, apenas um conjunto sonoro que é possível entrever e construir à primeira audição.

“Marisa Monte – Pra Ser Sincero”
http://www.youtube.com/watch?v=Lk3jpgb-0iE

“Marisa Monte – Vilarejo”
http://www.youtube.com/watch?v=-g83_ZRGM48&feature=related

Bom proveito!

quarta-feira, 21 de maio de 2008

#26 - Avôhai (um sopro dos etês)


E se existe artista capaz de reunir mitologia grega, história em quadrinhos e poesia do cotidiano a uma primorosa capacidade musical, que esta sina recaia sobre Zé Ramalho.

Nascido na Paraíba, em 1940, o primo de Elba Ramalho (com quem compartilha supostos contatos com seres extraplanetários) sempre fora de muitas misturas, mas a pior delas foi a de sua alma artística com a busca da sensação de liberdade. Embrenhado desde muito jovem em meio aos grandes cantadores (inclusive Alceu Valença e Raul Seixas) não se evitou de usar drogas. Nos anos 70, já em carreira, construiu uma casa à beira-mar, exclusiva para reunir amigos e “sacudir a região”. Deixou o vício por completo somente em 1989, para o bem de sua vida e arte.

Sobre este episódio compôs “Vila do Sossego”, canção de oposições, em que o arranjo vocal em tom sublime contrasta com sua voz rígida e resoluta a recitar uma letra visceral.

"Vila do Sossego":
http://www.youtube.com/watch?v=GbygYXEwoTA

E sua poesia e raiz nordestina ganham brilho especial na maravilhosa e enigmática “A Terceira Lâmina”:
http://www.youtube.com/watch?v=XYwxCn0nMPI

Bom proveito!

segunda-feira, 28 de abril de 2008

#21 - Metades, fases e faces


A noite já havia deitado a escuridão sobre as ruas daquela remota aldeia de pescadores. Alguns pequenos focos de luz procuravam vencer as trevas, em alguns casebres, e principalmente no precário bar da região. Lá dentro os homens jogavam conversa fora, aqui e ali.

- Chegou um cara esquisito aqui esses dias, cê viu? – pergunta um deles ao companheiro que dividia a mesa e uma cerveja.
- Fora de temporada? Vi não...

Instantes depois entra no local uma figura tranqüila e resoluta, cabelos grandes e barba espessa. Trazia os olhos profundos mais tristes do que o sorriso que parecia querer brotar de seus lábios.

- Olhaí o próprio! – cochichou o primeiro.
- Que cara esquisito... Parece daqueles poeta solitário que vive cantando nossas mulhé.
- Ah... se ele vier com esses papo... – era tarde demais, pois o assunto dirigia-se até os dois.
- Boa noite! Posso me sentar? – pediu com gentileza o “poeta solitário”.
- Pode sim, claro – disseram os dois.

Após as primeiras apresentações, e algum silêncio, um dos nativos pergunta, no meio de um gole:

- Então... que anda fazendo por essas bandas sozinho?
- Nada de mais – respondeu, com certa tristeza. – Acho que fugindo de alguma coisa.

O par da região entreolhou-se, compreendendo algo.

- Ah... tá numa fase ruim, é?
- Bom... acho que não temos fases... temos faces.

Outro olhar foi trocado pelos matutos, este mais longo e pesado. Em seguida, o homem pediu licença e apontou para o balcão, para onde dirigiu-se.

Pediu algo ao velho que atendia, pouco antes de virar o rosto, dar “Boa noite” e puxar papo com os figuras ao seu lado.

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Oswaldo Montenegro compôs música e letra da canção a seguir, que talvez seja uma das mais belas obras que postarei aqui em muito tempo. Melodia intensa, harmonia perfeita e poesia deliciosa e precisa:

- Oswaldo Montenegro – “Bandolins”:
http://www.youtube.com/watch?v=VqBj0BPZ3dU

Bom proveito!

segunda-feira, 14 de abril de 2008

#17 - Entre a chama mística e a água de chuva


… E quem iria condenar o garotinho que viciara em versos e rimas? Se Pernambuco toda bebia do mesmo pecado... Assim cresceu José Paes de Lira, declamador e músico arcoverdense, entre teatros e afins, esbanjando energia e paixão entre histórias e estórias em verso.

Em 1997, já adulto, criou um espetáculo teatral que era basicamente um apanhado de textos regionais, entremeados por algumas músicas. A empreitada fez muito sucesso, e ganhou apresentações por todo o interior de Pernambuco.

Com o passar do tempo, a música foi ganhando mais e mais espaço, e em 2001 o Cordel do Fogo Encantado (nome do primeiro espetáculo, adotado efetivamente pelo grupo) entrou em estúdio para gravar o primeiro CD, de mesmo nome. Foi então que o Cordel ganhou projeção nacional, ao passo que suas apresentações ao vivo fulminavam as platéias com uma energia humana e sonora além do comum.

Discordo bastante daqueles que afirmam ser o Cordel um dos maiores representantes da cultura musical brasileira. Apesar disso ter lá sua grande verdade, acredito que os elementos de sua música que são decisivos no ganho de público são justamente os que vêm de outras culturas: a africana (na percussão), e a espanhola/argentina (em muitos dos arranjos de violão), muito embora possamos justificar que a cultura brasileira é exatamente um misto de culturas.

Laureado com diversos prêmios, como: banda revelação pela APCA, melhor grupo pelo BR-Rival, Caras, TIM, Qualidade Brasil e o bi-campeonato do Prêmio Hangar, o Cordel, hoje, já prioriza 100% a música. Até antes de 2006, concebiam primeiro um contexto teatral, para depois criarem as canções.

- Chover (ou invocação para um dia líquido)
http://www.youtube.com/watch?v=9I4pUXeJKAI&feature=related (ao vivo)
http://www.youtube.com/watch?v=wVRO4CnzGzU (clipe)

- Palhaço do Circo Sem Futuro
http://www.youtube.com/watch?v=a0MuxMjY1vo (ao vivo)

Bom proveito!


Chover (ou invocação para um dia líquido)

"O sabiá no sertão
Quando canta me comove
Passa três meses cantando
E sem cantar passa nove
Porque tem a obrigação
De só cantar quando chove

Chover chover
Valei-me Ciço o que posso fazer
Um terço pesado pra chuva descer
Até Maria deixou de moer
Banzo Batista, bagaço e banguê

Chover chover
Cego Aderaldo peleja pra ver
Já que meu olho cansou de chover
Até Maria deixou de moer
Banzo Batista, bagaço e banguê

Meu povo não vá simbora
Pela Itapemirim
Pois mesmo perto do fim
Nosso sertão tem melhora
O céu tá calado agora
Mais vai dar cada trovão
De escapulir torrão
De paredão de tapera

Bombo trovejou a chuva choveu

Choveu choveu
Lula Calixto virando Mateus
O bucho cheio de tudo que deu
suor e canseira depois que comeu
Zabumba zunindo no colo de Deus
Inácio e Romano meu verso e o teu
Água dos olhos que a seca bebeu

Quando chove no sertão
O sol deita e a água rola
O sapo vomita espuma
Onde um boi pisa se atola
E a fartura esconde o saco
Que a fome pedia esmola

Seu boiadeiro por aqui choveu
Seu boiadeiro por aqui choveu
Choveu que amarrotou
Foi tanta água que meu boi nadou.”

quarta-feira, 2 de abril de 2008

#13 - Sobre sal e pedras.


Era o ano de 1967. Numa sala tranquila, de suficiente privacidade, a diva brasileira Elis Regina ouvia um certo cantor e compositor a apresentar suas músicas, já que ela buscava material para um novo disco.

O humilde rapaz havia praticamente esgotado seu repertório diante de Elis, sem que ela parecesse especialmente interessada em alguma de suas criações. Quando tudo parecia acabado, Elis insiste: “Você não tem mais nada mesmo?”.

Um tanto assustado e tímido diante de tão admirável cantora, o moço resolveu que não tinha nada a perder, e resolveu mostrar uma canção ainda não totalmente pronta. Poucos instantes após começar a ouvi-lo, ela grita: “É essa, meu Deus! É essa!”.

Este moço era Milton Nascimento, e a admirável música chama-se “Canção do Sal”.
Milton Nascimento nasceu no Rio de Janeiro, em 26 de Outubro de 1942. Teve pais muito pobres e acabou sendo adotado por uma família que muito o incentivou artisticamente. Iniciou carreira como cantor de bailes aos 13 anos.

Cantou com dúzias de outros artistas, incluindo Angra, Maria Bethânia, Elis Regina, Gal Costa, Jorge Ben Jor, Caetano Veloso, Simone, Chico Buarque, Clementina de Jesus, Gilberto Gil, Sandy & Junior, Paul Simon, Peter Gabriel (com quem co-escreveu a música Breath after Breath do Duran Duran), Herbie Hancock, Quincy Jones e Jon Anderson.
Aproveito também para indicar outra obra-prima de Mílton. A canção pela qual, talvez, ele tenha tornado-se referência mundial na música (sem qualquer exagero), principalmente nos anos 60 e 70: "Travessia".


-Canção do Sal

"Trabalhando o sal é amor é o suor que me sai
Vou viver cantando o dia tão quente que faz
Homem ver criança buscando conchinhas no mar
Trabalho o dia inteiro pra vida de gente levar

Água vira sal lá na salina
Quem diminuiu água do mar
Água enfrenta sol lá na salina
Sol que vai queimando até queimar

Trabalhando o sal pra ver a mulher se vestir
E ao chegar em casa encontrar a família sorrir
Filho vir da escola problema maior é o de estudar
Que é pra não ter meu trabalho e vida de gente levar"


-Travessia

“Quando você foi embora fez-se noite em meu viver
Forte eu sou mas não tem jeito, hoje eu tenho que chorar

Minha casa não é minha, e nem é meu este lugar
Estou só e não resisto, muito tenho prá falar

Solto a voz nas estradas, já não quero parar
Meu caminho é de pedras, como posso sonhar
Sonho feito de brisa, vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar

Vou seguindo pela vida me esquecendo de você
Eu não quero mais a morte, tenho muito que viver
Vou querer amar de novo e se não der não vou sofrer
Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver

Solto a voz nas estradas, já não quero parar
Meu caminho é de pedras, como posso sonhar
Sonho feito de brisa, vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar”

segunda-feira, 31 de março de 2008

#9 - "É qui eu tô cum a unha lascada, di modo que ceis disculpe qualquer erro..."


Elomar Figueira Melo (1937), setentão do sertão de Vitória da Conquista, teve infância miserável, mas a pobreza ficou apenas no material. Desde a adolescência, misturava-se com os cantadores e intelectuais da região, e já aos dezessete escrevia suas primeiras partituras.

Elomar solidificou-se na música brasileira com um estilo em que o erudito dita as regras, mas em que a beleza das canções acaba por criar uma sutil parcela de popularidade, alcançando não só um público mais esclarecido, mas também indivíduos que estejam tangendo um patamar acima do popular simplório. Sobre ter uma relativa fama, mas ainda estar muitíssimo longe das massas, Elomar é bastante enfático:

"Nunca tive intenção de que minha música fosse profanada pelas massas. O povo é alimento para políticos demagogos, já viu uma turba atrás do trio elétrico? Não é gente, é um rebanho, uma manada de zebras".

Contrariando muitos dos artistas populares brasileiros, aos quais facilmente atribuímos papéis políticos (e até os próprios o fazendo através de suas músicas), Elomar afirma que a arte deve ser um meio de expressão do universo do artista e de Deus. Assim sendo, suas belíssimas canções são sempre um turbilhão inflamado de cenários vistos e histórias vividas... As dores da seca, o rio Gavião, as andanças de cantoria... e a puríssima linguagem de sua nataleza (como ele mesmo diria...).
Bom proveito!

Elomar – Campo Branco” (cantado por Alba Graça):
http://www.youtube.com/watch?v=V7hvmi3iBAU

“Campo branco minhas penas que pena secou
Todo o bem qui nóis tinha era a chuva era o amor
Num tem nada não nóis dois vai penano assim
Campo lindo ai qui tempo ruim
Tu sem chuva e a tristeza em mim

Peço a Deus a meu Deus grande Deus de Abraão
Prá arrancar as penas do meu coração
Dessa terra sêca in ança e aflição
Todo bem é de Deus qui vem
Quem tem bem lôva a Deus seu bem
Quem não tem pede a Deus qui vem

Pela sombra do vale do ri Gavião
Os rebanhos esperam a trovoada chover
Num tem nada não também no meu coração
Vô ter relampo e trovãoMinh'alma vai florescer
Quando a amada e esperada trovoada chegá
I antes da quadra as marrã vão tê
Sei qui inda vô vê marrã parí sem querer
Amanhã no amanhecer
Tardã mais sei qui vô ter
Meu dia inda vai nascer
E esse tempo da vinda tá perto de vim
Sete casca aruêra contaram prá mim
Tatarena vai rodá vai botá fulô
Marela de u'a veis sóPrá ela de u'a veis só.”

“Elomar – Arrumação” (pelo próprio):

“Josefina sai cá fora e vem vê
Olha os forro ramiado vai chuvê
Vai trimina riduzi toda criação
Das bandas de lá do ri gavião
Chiquera pra cá já ronca o truvão
Futuca a tuia, pega o catadô
Vamo planta feijão no pó
Futuca a tuia, pega o catadô
Vamo planta feijão no pó
Mãe purdença inda num cuieu o ai
O ai roxo dessa lavora tardã
Diligença pega panicum balai
Vai cum tua irmã, vai num pulo só
Vai cuiê o ai, o ai da tua avó
Lua nova sussarana vai passá
Sêda branca, na passada ela levô
Ponta d´unha, lua fina risca o céu
A onça prisunha, a cara de réu
O pai do chiquêro a gata comeu
Foi um trovejo c´ua zagaia só
Foi tanto sangue que dá dó
Os cigano já subiro bêra ri
É só danos, todo ano nunca vi
Paciênca, já num guento as pirsiguição
Já só caco véi nesse meu sertão
Tudo que juntei foi só pra ladrão.”